Esperava um ônibus que o levasse até a rua da Consolação – adorava esse nome – perto de sua casa. A garoa da madrugada estava escassa de ônibus, mas repleta de gente. Quando já pensava em desistir, oscilando entre qual perna imprimir mais força para o sustento do corpo, parou o Jaçanã. Tomou esse, e como a brincar consigo mesmo, danou-se a cantar baixinho o Trem das Onze, de Adoniran Barbosa.
Como criança que brinca, terminava a letra e recomeçava. Sentia uma alegria política em vocalizar aquele texto em samba, tão emblemático, quase folclórico, da cidade de São Paulo, esta mesma que lhe corria pela vista através da janela. A cidade e sua classe trabalhadora foram-se construindo naquele seu canto murmurado: a letra e a voz. Repetiu mais de cinco vezes a poesia de Adoniran, até chegar seu ponto de saltar do ônibus. Desceu, sorrindo para a cidade. E esperou o Jaçanã partir e perder-se de vista na Consolação. Então tornou a cantar.
“Não posso ficar nem mais um minuto com você”. E cruzou a avenida, tomando um calçadão da avenida Paulista. “Sinto muito, amor. Mas não pode ser”. Grupos de pessoas circulavam pelo frio da noite. Ao pé de uma agência bancária, dois mendigos dormiam. “Moro em Jaçanã!” Imaginou, dispondo de um repertório imagético razoável de ruas e bairros paulistanos na memória, um Jaçanã entristecido, um lugar açoitado pela rotina e pelo movimento redundante de milhares de vidas mestiças.
Tomava consciência de que as imagens de “seu Jaçanã” eram tingidas por uma pátina escura, provocada pela memória da dor e pelos sonhos não realizados de uma classe trabalhadora de forte descendência nordestina. Imaginou muita gente circulando na poeira urbana, e entendeu que o combustível desse movimento era o poder organizado em balança comercial. “Se eu perder esse trem, que sai agora às onze horas, só amanhã de manhã”. Dorme-se onde quando se perde o trem da onze?
Era tarde, mas nesse instante passou por ele um homem vestido com roupas de repartição, carregando uma pasta surrada e uma cara arreada de cansaço. É um nordestino, pensou. Ele sempre dizia aos amigos que se fosse criar um documentário sobre São Paulo seria um também sobre o Nordeste, sobre como seus encontros na rua com os retirantes, trabalhadores braçais ou desempregados em São Paulo, se estruturavam segundo uma ressonância motora da dor física e da contração cardíaca própria de quem sofre longe de casa. Ele próprio um nordestino branco e de uma classe social alta o suficiente para sobrevoar aquela contingência, sentia compaixão ao julgar de vã a busca por uma “vida melhor” que seus conterrâneos significavam no sonho do imigrante. Percebeu, no mesmo movimento, que sua compaixão era também arrogância.
Sobre toda a ambivalência de seus pensamentos, cantou: “e além disso, mulher, tem outras coisas: minha mãe não dorme enquanto eu não chegar”. Sua voz, embora ainda se projetando pela calçada pública, subiu deliberadamente de volume e ameaçou embargar-se num soluço de tristeza. Foi preciso empenhar-se e quase gritar: “sou filho único, tenho minha casa pra morar”. Seu cérebro traçara uma conexão específica de mapas neurais: ele parou de caminhar e sentiu uma pressão subindo do coração e forçando a goela, o rosto e a nuca. “Meu Deus”.
A dois quarteirões de casa, parado na esquina da avenida Paulista com a rua Haddock Lobo, naquela madrugada ele chorou como uma criança, e soluçou publicamente pela cidade de São Paulo, lugar para onde vêm os nordestinos que acreditam na metáfora social do “trabalho” como destino e função do corpo. Engenhoso processo vital: essa torção da carne e vazamento de fluidos era São Paulo redimindo a si própria.
